Ninguém gosta de FHC?
Uma das perguntas mais intrigantes da cena política brasileira contemporânea é a seguinte: por que ninguém gosta do de Fernando Henrique Cardoso? Que os adversários lhe atirem dardos, está bem. É do jogo. A campanha de Lula em 2006 foi baseada numa comparação que transformava a gestão de FHC num catálogo de fracassos, em posição às supostas conquistas formidáveis de seus primeiros quatro anos. Isso se entende. Mas que os próprios aliados o venham sistematicamente evitando é uma esquisitice brasileira.
José Serra fez isso na campanha em que perdeu para Lula, em 2002. Quatro anos mais tarde, Geraldo Alckmin fez o mesmo. A derrota de ambos poderia ser uma espécia de consolo para FHC: definitivamente não foi sua culpa.
Pelos dados lógicos, FHC deveria ser um gigante perante os brasileiros. Foi ele quem devolveu, com o Plano Real, a estabilidade à economia do país. Estabilidade e, mais importante, dignidade: uma economia instável é uma piada. Uma impossibilidade. Depois de décadas de inflação tonitruante, imune a suce+ssivos planos mirabolantes e patéticos, FHC triunfou onde tantos fracassaram. A estabilidade é a base de qualquer projeto de crescimento econômico, e por aí se tem uma idéia da magnitude do feito de FHC. Milhões de brasileiros pobres cujoo dinheiro pequeno era massacradi pela corrosão inflacionária melhoraram de vida com a vitória de FHC sobre a alta obsessiva dos preços.
Seus oito anos de presidência, além isso, incluíram o Brasil o cenário globalizado moderno. Um currículo tão expressivo, e ainda assim um ex-presidente tão mal-amado, a quem resta apostar, como Napoleão em Santa Helena, no julgamento da posteridade.
Considere a personalidade de FHC. Também por aí se chegará à conclusão de que deveria ser fácil gostar dele. É inteligente, espirituoso. Sabe rir e fazer rir. Charmoso. Um homem para quem o cargo parecia um prazer, e não um fardo, como fora pra o antecessor, Itamar Franco, e tantos outros presidentes que o Brasil teve. Criador de frases instigantes, depois copiadas mesmo por rivais em tributos involuntários: o clássico "chega de nhenhenhém" com que FHC reagiu à conversa miúda e mesquinha de políticos foi, na semana passada, repetido por Lula. Em seus dias de poder, FHC foi um notávels representante do Brasil entre pares no mundo e um homem que, por isso mesmo, deveria merece+r a gratidão admirada de seus compatriotas por honrar a pátria.
E, ainda assim, repita-se, um mal-amado para quem parece restar a posteridade.
Como explicar? Uma justificativa possível e até provável é que o mundo não gosta de FHC porque FHC mesmo, em muitos pontos, não gosta de FHC. O Processo de privatização em seu governo, por exemplo. Um único caso. Os brasileiros ficavam numa fila de anos para conseguir uma linha telefônica e pagavam um bom dinheiro por ela caso optassem pelo atalho do mercado paralelo. Veja o que acontece hoje. A razão do avanço foi a privatização. Pode-se reclamar não do que foi feito nas privatizações, mas do que deixou de ser feito. As privatizações de FHC foram uma conquista e uma inovação. O estado obeso, metido em tudo, diminuiu depois de um ciclo interminável de crescimento desordenado que levou à quebra do país.
Pois FHC sempre pareceu um privatizador contrariado. A sensação é que ele fez o que fez não porque acreditava na causa, mas porque não via saída. Na última campanha presidencial, o embaraço com que Geraldo Alckmin tratou do tema é filho da forma como FHC tratou do mesmo tema. A posteridade pode dar a FHC o merecido lugar de u dos maiores estadistas que o Brasil teve. Deve dar, por justiça. Mas antes FHC tem que rever FHC.
- Eduardo Plarr, coluna "Nossa Política", Revista Época n°461, 19/03/07
Não farei comentário nenhum, só destaquei o trecho em negrito, porque eu acredito piamente nessa "teoria".

1 Comentários:
Meu futuro presidente da república e suas influências...
Te amo!
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